VERBETES:

 José Ferreira Junior

Un Anniversario Rivendicazione

Publicado em 20/09/2015

Datado do dia 29 de julho de 1901, período em que completava um ano do assassinato do rei da Itália Humberto I pelo líder anarquista, Gaetano Bresci, o jornal Un Anniversario Rivendicazione, editado na cidade de Belém do Pará, informava ao leitor que se tratava de uma edição única. Tinha quatro páginas exclusivamente voltadas para a contextualização do episódio da morte de Humberto I em Monza na Itália em 1900, para as consequências na trajetória política de Gaetano Bresci, naquela data já morto na prisão na ilha de Santo Estêvão, em 22 de maio daquele ano, e, ainda, para as implicações do fato no âmbito do movimento anarquista.

Há, ao longo das quatro páginas, textos escritos em italiano e em português. Na primeira página, por exemplo, tem-se um texto intitulado “Cause ed Effetti” (causas e efeitos), de Guglielmo Marrocco; e, ao lado, uma narrativa com o título de “A tragédia de Monza”, vertido para o português, assinado pelo ativista italiano Errico Malatesta. Tal postura editorial, no mínimo, sinaliza para a importância de alcançar, por parte do jornal, o público imigrante italiano no Pará e, também, os brasileiros interessados, ou até engajados, em causas anarquistas.

Para o catálogo Jornais paraoaras (1985, p. 181), a edição foi produzida para glorificação de Gaetano Bresci, afirmativa que não deixa de estar em sintonia com os textos produzidos para Un anniversario Rivendicazione. É generalista, entretanto, porque são facilmente encontradas nos artigos publicados, mesmo que sutilmente, temáticas caras ao movimento anarquista, entre as quais o anticlericalismo. Apresenta-se emblemático o modo pelo qual Guglielmo Marrocco (dessa feita assinando seu texto com a versão em português de seu prenome: Guilherme) finaliza seu artigo que tinha no próprio título uma interrogação: “De quem é a culpa?”.

A motivação para o assassinato de Humberto I advinha das mazelas do sistema capitalista, responsável pela falta de pão para a população pobre da Itália e, segundo Marrocco, o trabalho dos anarquistas era voltado “para que se realize a felicidade dos homens neste mundo… e não no outro […]; pois ninguém ainda voltou de lá para nos dizer: se está bem”, zombeteira argumentação em contraponto à pregação religiosa da época.

De certa forma, Un anniversario Rivendicazione traduziu o anseio dos imigrantes, nesse caso italianos residentes no Pará, atraídos quase sempre, naquela quadra, pela culminância da extração da borracha e pelas colônias agrícolas extrativistas, inclinados a aceitar os pressupostos do anarquismo em terras brasileiras, sobretudo no que diz respeito à internacionalização da causa operária; e, de alguma maneira, à manutenção de laços culturais com a terra natal (MARAM, 1979, p. 84). O episódio em Monza e a tragédia pessoal de Gaetano Bresci se converteram em mote para propagandear os valores dos anarquistas em um ambiente de baixa concentração industrial e sem maiores tradições de organização sindical.

Referências

BIBLIOTECA PÚBLICA DO PARÁ. Jornais paraoras: catálogo. Belém: Secretaria de Estado de Cultura, Desportos e Turismo, 1985.

MARAM, Shelson Leslie. Anarquista, imigrantes e o movimento operário brasileiro 1890-1920. Trad. José Eduardo Ribeiro Moretzsohn. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979.

Para citar este artigo:

FERREIRA Jr., José. Un Anniversario Rivendicazione. In: Site TRANSFOPRESS Brasil, disponível em:<http://transfopressbrasil.franca.unesp.br/verbetes/unanniversario/>