VERBETES:

 Alberto Barausse
Maria Helena Câmara Bastos
Antonio de Ruggiero

 

 

 

O jornal Stella d’Italia (1902-1925)

Publicado em 07/12/2017.

Porto Alegre, entre o final do século XIX e o início do século XX, foi cenário de numerosas iniciativas editoriais de periódicos em língua italiana (Cinquantenario 1925, p.444-447).  O jornal Stella d’Italia foi o porta-voz mais acreditado da numerosa comunidade italiana do estado do Rio Grande do Sul desde 1902 até 1925. A recente localização dos números impresso e microfilmados de exemplares do periódico Stella d’Italia para o período bem amplo (1902-1917), nos permite começar uma investigação mais sistemática seja pelo quanto se refere aos aspectos editoriais da iniciativa, seja no que diz respeito às orientações assumidas durante o seu longo período de existência. O estudo do Stella d’Italia (1902-1917) integra o projeto de pesquisa – “A imprensa étnica italiana em Porto Alegre: da grande emigração ao fascismo (1875-1943) ”, iniciado em colaboração com a Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul/PUCRS e a Università del Molise/UNIMOL, na Itália.

O projeto de publicação do novo jornal foi apresentado o 1º de dezembro de 1900, pela Comissão Promotora, constituída por vários profissionais: o engenheiro Pietro Rusca, o fotógrafo Virgilio Calegari, o comerciante Felice Dodero, os médicos – Gennaro Lanzara, Gaspare Vincenti, Biaggio Rocco, Giovanni Battista De Paoli, o farmacêutico Stefano Rocco, e o jornalista Adelchi Colnaghi. A Comissão explicava que o grupo pretendia constituir um jornal

inspirato a sentimenti altamente patriottici ed indipendenti, [che] per mezzo d’una saggia e previdente collaborazione, riesca a disciplinare gli sforzi individuali, sorreggerli, animarli e fonderli in una unica e poderosa collettivitá.  (Circular 1 dezembro 1900 incluido em Stella d’Italia, n. 1, 30 março 1902)

Para garantir a sustentabilidade financeira do jornal o grupo dos fundadores pretendiam constituir uma sociedade por ações.

O projeto anunciado em 1900 passou por várias etapas, quando em 1901 foi retomado diretamente pelo Diretor Colnaghi, o qual, depois uma experiência de dez anos –ele chegou em Porto Alegre no ano 1890- aceitou as solicitações de outros compatriotas para iniciar “um jornal que, longe das pressões políticas partidárias, concretizasse as aspirações e ideias da Colônia e da Pátria, lutando sempre para afirmar o nosso nome e o nosso direito” (Circular 7 fevereiro 1902 em Stella d’Italia,a. I,  n. 1 -30 marco 1902).

Administrador, depois Editor-gerente, foi Benvenuto Crocetta naquela época, também secretário de uma das mais conhecidas sociedade de mutuo socorro italianas, a Società Pincipessa Elena di Montenegro, que atuava na capital do Rio Grande do Sul.

A administração do jornal ficava na Tipografia do Centro, sita na Rua Santa Catharina, em Porto Alegre, para onde deveria dirigir-se a correspondência. Posteriormente, passa a ser editado pela Typografia “Italo-Riograndense” de Giuseppe Petrocchi. E a Direção, Administração e Tipografia, passam para a rua General Câmara, n. 10 (antica rua da Ladeira). Quanto ao envio de colaborações, o cabeçalho informava: “O manuscrito não publicado não é restituído. Não se aceita escritos de polêmica pessoal”. O cabeçalho da capa principal traz uma estrela cometa. O jornal, premiado na Exposição Universal de Milão, em 1906, com a Menção Honrosa,  foi um periódico bissemanal –saia quintas e domingo- que até o ano 1908 é editado em quatro colunas, com 4 páginas (A4 dobrado no meio), sendo a última dedicada aos romances em forma de folhetim e à propaganda (restaurantes, moda feminina e masculina, produtos italianos, produtos farmacêuticos, hotéis, alfaiataria, marcenaria, lanifícios, aulas de italiano, escolas, ateliê fotográfico, fábrica de guarda-chuva e bengalas, açougues, móveis, tecidos, clubes, casas de bilhar, armazéns e fiambrerias, padarias, lotéricas, etc.). Os interessados em publicar anúncios deveriam dirigir-se ao encarregado Francisco Truda e o pagamento deveria ser antecipado.

Em 20 de setembro de 1908 (ano VII, n. 673) passa a contar com 6 colunas, com tamanho maior (A3), com 8 páginas. Também altera o cabeçalho, que apresenta elementos simbólicos que lembram a influência da maçonaria: a estrela de 5 pontas, acima da cabeça feminina, emoldurada por folhagens. A mulher também simboliza a monarquia italiana. O sistema de assinaturas era anual (10$000), semestral (6$000) ou trimensal (3$000). O costo do número avulso era R$200:  “Pagamento antecipado sem exceção alguma”.

Quanto aos números publicados, temos a informação de que, de 30 de março de 1902 a 18 de maio de 1916, foram publicados 1470 números.

O primeiro número de 1902, nos créditos informa que é publicado “Sob os auspícios das Sociedades Italianas do Rio Grande do Sul: – Porto Alegre: Vittorio Emanuele I, Principessa Elena di Montenegro, Palestra Umberto I, Ausonia, Circolo Filarmonico Italiano; -Tristeza: Giuseppe Mazzini; – Caxias: Principe de Napoli”.

Adelchi Colnaghi, apresentava o jornal como uma voz independente que não pertencia a nenhuma religião ou partido e que não pretendia dividir mas unir no ideal da pátria. Afirmava que o próprio título já compreendia um extenso programa, que pretendia formar o espírito cívico solidário, que considerava que falta na comunidade italiana. Criticava o patriotismo individual e isolado que contrastava com a ideia de homogeneidade. Considerava que o imigrante italiano no exterior não devia ter nenhum partido, que não fosse aquele da Pátria. O projeto era de homogeneizar e disciplinar o patriotismo dos imigrantes, “para que as massas possam ser invencíveis” (L’ideale della Stella d’Italia, 30 de março de 1902, p. 1). Colnaghi ainda explicitava que os objetivos do jornal era “construir uma coletividade com uma identidade homogênea com Mãe Pátria para contrastar a dispersão e isolamento em que vivia a comunidade italiana de Porto Alegre e do Estado”. Buscava promover uma identidade italiana entre as novas gerações nascidas no Brasil, que estavam mais afeitas à assimilação da cultura identitária brasileira. A missão do jornal visava integrar as inúmeras sociedades autônomas, as escolas, em uma única “federação”.

O jornal tinha como bandeira maior a nacionalização das massas imigrantes, voltado para uma nascente burguesia liberal na comunidade italiana, refletindo a nova orientação da política liberal italiana, do final do século XIX e princípios do XX (Aquarone, 1987). Neste sentido, podemos pensar que a política do periódico se voltava para contrastar com o processo de naturalização que envolvia os descendentes de italianos nascidos no Brasil. Outros periódicos italianos publicados no Brasil – como Fanfulla e La Tribuna, os dois maiores jornais publicados em São Paulo, promoveram um debate quanto a oportunidade ou não de uma adesão ao processo de assimilação. Nesta perspectiva, os periódicos vão ressaltar as comemorações das festas nacionais italianas, como veículo para construir um imaginário identitário coletivo fundado nas tradições.

Ao longo das duas décadas de experiência o jornal focou assuntos diferentes como aqueles em relação as providencias dos governos liberais italianos, as relações com a Igreja Católica e o Papa, as colônias do Norte Africa e, especialmente, a guerra “tripolina”, e a primeira guerra mundial; ou as medidas do governo federal brasileiro, e aquelas do governo do Rio Grande do Sul especialmente em relação a política colonial e imigração italiana. Ao mesmo tempo contribuiu para fomentar a expansão das categorias profissionais e as redes de sociabilidade urbana em dialoga com as comunidades rurais e o contributo dos empreendedores italianos para o desenvolvimento industrial. Neste sentido um espaço importante foi representado pelas sociedades de mútuo socorro e seu envolvimento com o projeto de uma educação cívica mais abrangente, isto é, que vá para além das escolas (Pátria educadora). Por isso o jornal assumiu orientações várias em relação as diretrizes das autoridades diplomáticas italianas e as estratégias políticas, culturais e educacionais dos cônsules e agentes consulares. Um espaço significativo foi voltado para eventos e iniciativas finalizadas a entrelaçar as ligações transnacionais e a identidade nacional como a Exposição universal de Milão no ano 1906 ou a inauguração dos eventos que envolveram uma forte carga simbólicas como as comemorações para o Vinte de Setembro ou a inauguração da estátua de Anita e Giuseppe Garibaldi.

Stella dItalia imagem

Imagem: Stella d’Itália, ano VII, nº 613, Porto Alegre, 20 de setembro de 1908.

Referências

AQUARONE, Alberto. Tre capitoli sull’Italia giolittiana. Bologna: Il Mulino 1987.

CINQUANTENARIO della colonizzazione italiana nel Rio Grande del Sud. Porto Alegre: Livraria do Globo, 1925, vol. 1, pp. 446-449.

CONSTANTINO, Nuncia Maria Santoro de. L’Italiano di Porto Alegre: immigrati meridional nella capitale del Rio Grande do Sul. Cosenza: Luigi Pellegrini, 2015.

LUCHESE, Terciane Ângela. Catolicidade e a italianidade no Jornal Il  Corriere d’Italia, RS, Brasil (1913-1927). In de RUGGIERO, Antonio; BARAUSSE, Alberto; MERLOTTI HEREDIA, Vania Beatriz (Org.), História e narrativas transculturais entre a Europa Mediterrânea e a América Latina. Porto Alegre: EDIPUCRS, p. 277-300.

POZENATO, Kenia Maria Menegotto; GIRON, Loraine Slomp (Org.). 100 anos de imprensa regional 1997-1997. Caxias do Sul: UCS, 2004.

POSSAMAI, Paulo. “Dall’Italia siamo partiti”. A questão da identidade entre os imigrantes italianos e seus descendentes no Rio Grande do Sul (1874-1945). Passo Fundo: EDUPF, 2005.

RECH, Gelson Leonardo; TAMBARA, Elomar Antonio Callegaro. O Jornal Stella D’Italia e a defesa da escola étnica italiana (1902-1904). In: História da Educação/ASPHE, v.19, n.45, jan/abr. 2015, p. 159-182.

TRENTO, Angelo, Imprensa italiana no Brasil séculos XIX e XX. São Carlos: EdufSCar. 2013.

Para citar este artigo:
BARAUSSE, Alberto; BASTOS, Maria Helena Câmara; RUGGIERO, Antonio de. O jornal Stella d’Italia (1902-1925). In Site TRANFOPRESS Brasil, disponível em: <http://transfopressbrasil.franca.unesp.br/verbetes/o-jornal-stella-ditalia-1902-1925/>