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Lucia Chermont

 

 

Di Menscheit (A Humanidade), a primeira publicação em língua iídiche no Brasil

Publicado em 09/03/2018.

O primeiro periódico em iídiche no Brasil foi publicado na cidade de Porto Alegre. A comunidade nesta cidade era formada, em parte, por ex-colonos das colônias agrícolas da Jewish Colonization Association (JCA), que devido às inúmeras dificuldades alguns de seus membros foram se dirigindo para os centros urbanos. Porto Alegre tinha também uma população judaica diversa daquela saída das colônias, mas era na sua maioria composta por judeus de fala iídiche.

O surgimento do periódico foi estimulado por necessidades vigentes, como a questão do idioma. Muitos imigrantes não dominavam o português e usavam para comunicação o iídiche, o mesmo acontecia com seus poucos intelectuais. As agências telegráficas quase não forneciam informações especificas de interesse da comunidade judaica, principalmente sobre o que acontecia na Europa Oriental. Também durante a I Guerra Mundial as comunicações com a Europa não ocorriam com regularidade.

O Di Menshait foi fundado sobre as bases comerciais da Sociedade Jornalística Israelita (IdisheTzeitungs-Guezelshaft), cujos integrantes eram acionistas, com cotas de 25 mil réis. O periódico tinha em seu cabeçalho o jornalista conhecido como Josef Halevi, que veio da argentina, como redator do jornal e editor da Sociedade Jornalística Israelita. Halevi tinha sido anteriormente correspondente do jornal Hatzefira, de Varsóvia.

Para possibilitar a impressão do primeiro jornal em iídiche foi necessária a importação de tipos hebraicos da Argentina. No serviço técnico cooperavam Bernardo Goldenberg e Jacob Becker, que juntamente com Halevi compunham o jornal à mão e levavam as páginas compostas a uma tipografia, para serem impressas.

O Di Menscheit começou a circular em 1/12/1915, com 4 páginas, formato pequeno e idealizado para ser um semanário. O jornal se declarava uma publicação imparcial, não seguindo orientação sionista nem socialista. Entre os artigos inseridos em seu primeiro número constam: “A Guerra Europeia”, “Os judeus na Rússia”, “Os judeus e a Guerra”, “A educação judaica e a autoeducação”.

O jornal revela a existência de um teatro ídiche em Porto Alegre, entre as peças apresentadas estão: Hershele Meiuches, A Shidduch in Kich e MazelTov. A caridade judaica também estava presente sendo publicadas as mobilizações da comunidade em favor das vítimas da guerra, lembrando que ações semelhantes aconteciam no Rio de Janeiro, em São Paulo e em outras cidades do Brasil e do mundo.

Um relato interessante sobre a comunidade local: havia em Porto Alegre um Talmud Torá (Escola Judaica), com a chegada dos judeus das colônias, mais observantes do ponto de vista religioso, estes não se conformaram com o programa educacional da escola existente por considerarem laica. Acabaram por fundar um novo estabelecimento de ensino para seus filhos. Este acontecimento feriu sentimentos dentro da coletividade, saiu publicado no jornal e acabou de forma litigiosa.

O periódico tinha correspondentes em várias regiões do país: Quatro Irmãos, Cruz Alta e Santa Maria, no Rio Grande do Sul, Curitiba, São Paulo e Rio de Janeiro. Possuía dois endereços: um para cartas e reportagem, e outro especialmente para solicitações de assinaturas.

Infelizmente Di Menscheit teve curta duração, saíram apenas 06 exemplares.

A Humanidade 1915-min

Imagem: Di Menscheit (A Humanidade), Porto Alegre, ano 1915.

Referências

FALBEL, Nachman. Judeus no Brasil: estudos e notas. São Paulo: Humanitas; Edusp, 2008.

HALPERN, Josef. Contribuição para a história da imprensa judaica no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Instituto Cultural Judaico Marc Chagal; Museu Judaico de Porto Alegre, 1999.

Para citar este artigo:
CHERMONT, Lucia. Di Menscheit (A Humanidade), a primeira publicação em língua iídiche no Brasil. In Site TRANFOPRESS Brasil, disponível em: <http://transfopressbrasil.franca.unesp.br/verbetes/di-menscheit-a-humanidade-a-primeira-publicacao-em-lingua-iidiche-no-brasil>