VERBETES:

 Monica Setuyo Okamoto

 

 

Burajiru Jihô (1917-1941) em defesa do ensino da moral japonesa (shûshin)

Publicado em 24/11/2017.

Segundo a Secretaria de Agricultura do Estado de São Paulo, dentre os imigrantes japoneses que desembarcaram no porto de Santos entre 1908 e 1932, quase 90% eram alfabetizados1. Isso se deveu à reforma educacional promovida pelo governo japonês na década de 1880, quando o Ensino Fundamental passou a ser compulsório.

O governo nipônico acreditava que a formação de “bons súditos” para a defesa nacional só seria possível por meio das escolas. Nesse sentido, uma das disciplinas mais importantes do novo currículo escolar japonês era a Educação Moral e Cívica (shûshin) que pregava, sobretudo, obediência e lealdade à figura do Imperador.

Assim, os jornais nipo-brasileiros do período anterior à Segunda Guerra Mundial costumavam enfatizar a importância de se ensinar a moral japonesa aos filhos dos imigrantes. Um dos impressos que tematizou a questão foi o jornal Burajiru Jihô (Notícias do Brasil), cujo proprietário e fundador, Seisaku Kuroishi, distinguia-se pela postura autoritária e conservadora.

O editor do Jihô afirmava que a melhor diretriz educacional para os filhos dos imigrantes japoneses seria a unificada, ou seja, aquela em que o ensino da língua portuguesa caminhasse em paralelo ao da língua japonesa. Contudo, o jornal fez um alerta quanto à importância da escola japonesa para a “saúde mental e familiar” das crianças. Segundo esse impresso, o ensino da língua japonesa e, sobretudo da educação moral (shûshin),2 conforme os padrões japoneses, era indispensável para a constituição do espírito e do caráter das crianças. 3

Na concepção do editor do Burajiru Jihô, a educação moral nos moldes tradicionais japoneses reforçaria o caráter dos nisseis (filhos de imigrantes japoneses nascidos fora do Japão), transformando-os em “bons cidadãos brasileiros”, uma vez que se ensinariam valores “universais” como a coragem, o respeito e a fidelidade. Por outro lado, o discurso do Jihô era cheio de ambiguidades, pois ele também defendia, discretamente, a ideia de “orgulho da raça japonesa” e do “espírito de Yamato”.4

verbete 037

Livro didático da disciplina de educação moral e cívica (versão para meninas). Kôkôshôgaku shûshinsho. 1929.

Notas:

1 DEMARTINI, Zélia de Brito Fabri. Relatos orais de famílias de imigrantes japoneses: elementos para a história da educação brasileira. In: Educação & Sociedade, ano XXI, no 72, p. 43-72, Agosto/00.

2 É necessário esclarecer que, a partir do período Meiji (1868-1912), a educação moral e cívica (shûshin) ocupou lugar dos mais importantes no currículo escolar no Japão. KHAN, Yoshimitsu.  Japanese moral education past and present. New Jersey: Associated University Presses Inc, 1997. p. 73 e 74.

3 Apud SHIBATA, Hiromi. As escolas japonesas (1915-1945). A afirmação de uma identidade étnica. Dissertação. (Mestrado em Educação). Faculdade de Educação, da Universidade de São Paulo, São Paulo, 1977, p. 26.

4 Os japoneses costumam usar a expressão Yamato Damashii (espírito de Yamato ou espírito do Japão) como um conjunto de valores morais e espirituais característicos do povo japonês, no qual incluem coragem, lealdade e perseverança, dentre outros valores. Ver OKUBARO, Jorge J. O súdito: banzai massateru! São Paulo: Editora Terceiro Nome, 2008.

Para citar este artigo:
OKAMOTO, Monica Setuyo. Burajiru Jihô (1917-1941) em defesa do ensino da moral japonesa (shûshin). In Site TRANFOPRESS Brasil, disponível em: <http://transfopressbrasil.franca.unesp.br/verbetes/burajiru-jiho-1917-1941-em-defesa-do-ensino-da-moral-japonesa-shushin>