VERBETES:

 Valéria Guimarães

 

 

Livros de Registro da Biblioteca Pública de São Paulo ­ Fontes para história da leitura da imprensa no Brasil

 

Publicado em 13/10/2015.

Os “Registros de Jornais e Revistas”* aqui apresentados fazem parte da antiga Biblioteca Pública do Estado e desde 1937 pertencem ao acervo da Biblioteca Mário de Andrade. Estes catálogos são importantes sobretudo por fornecerem subsídios para a pesquisa sobre hábitos de leitura de sua época. Estão divididos em dois livros, 1911­-1925 e 1926-­1934, e através deles podemos ter acesso a uma série de referências dos periódicos estrangeiros e nacionais então adquiridos pela antiga Biblioteca Pública do Estado.

Eram jornais e revistas destinados à consulta pública, estando ao alcance dos leitores que encontravam­-se em São Paulo nos idos de 1900. Ao que parece, esta demanda contemplava uma grande variedade de idiomas, com exemplares em francês, inglês, italiano, alemão, espanhol, árabe, sírio, aramaico e, claro, português, o que inclui a produção lusófona em geral.

Os registros eram organizados por data de aquisição, título e nome do proprietário do periódico (editor, em geral), local de publicação (alguns dos registros trazem o endereço da redação), proveniência (doação, contribuição legal, compra etc.), idioma de publicação e tema, além de algumas observações do bibliotecário.

Outros critérios foram sendo adotados com o passar do tempo como a menção à periodicidade, ao preço e ao volume do jornal, sendo possível constatar se a publicação era recente ou longeva.

No que diz respeito aos idiomas em que eram publicados, no ano de 1911, a Biblioteca adquiriu 22 periódicos (jornais e revistas) em português (Brasil e Portugal, com predominância de São Paulo e Rio de Janeiro), 15 em francês e 2 em alemão.

No fim do ano seguinte, 1912, tinham dado entrada neste acervo 148 periódicos em português, 15 em francês, 1 em inglês, 6 em alemão, 3 em espanhol, 9 em italiano e 3 em outros idiomas. Entre os jornais em língua estrangeira, é possível perceber a predominância de publicações em francês, como era comum nos acervos brasileiros nesta passagem do século. Alguns deles eram editados no Brasil, como o francês Le Messager de São Paulo [ou S. Paul] de E. Hollender.

O critério de classificação dos catálogos foi alterado a partir de 1913, mas o “movimento do ano” dos periódicos, dividido por idioma, é assinalado ao fim de cada mês, e o francês continua sendo a língua predominante entre os impressos não­-lusófonos.

Chama a atenção o número irrisório de periódicos em espanhol, sejam eles provenientes da Espanha ou da América Espanhola, estando abaixo até do alemão, idioma muito distante do português, e do italiano. Neste último caso é até compreensível que haja mais periódicos italianos que espanhóis, o que se explica pela grande imigração e pela prolífica imprensa italiana em território nacional, sobretudo paulista.

Mas o fato de haver mais periódicos em francês que no idioma de Dante deixa claro que não podemos ligar de forma mecânica o fenômeno do impresso periódico em língua estrangeira apenas a uma expressão da presença de comunidades de imigrantes em solo brasileiro, uma vez que imigração francesa é muito inferior à italiana.

De qualquer modo, esse fato corrobora nossa hipótese de que o imaginário brasileiro proveniente da cultura letrada era pautado mais por suas ligações com a França que com os demais países da América Latina.

Em termos históricos, isso implica que as escolhas ocorridas no seio das instituições encarregadas de eleger parâmetros do que era tido como uma boa cultura letrada orientavam-­se tanto pelo papel exercido pela França como referência cultural, como pelas expectativas de certos grupos, que elegiam o periodismo francês como aquele que melhor poderia contribuir para a formação de seus leitores.

Como diz Peter Burke, ao tratar do tema da “tradução cultural”, existem dois critérios que orientam as escolhas do que será ou não traduzido: o preenchimento de “lacunas da cultura hospedeira” e o “princípio da confirmação, segundo o qual pessoas de uma dada cultura traduzem obras que sustentam ideias, premissas ou preconceitos já presentes nela.” [1]

Embora não se trate de um caso literal de tradução, a diversidade de jornais na São Paulo da época estudada nos dá a medida da importância das referências do jornalismo francês para os paulistas e, podemos dizer, para os brasileiros, dado o papel de São Paulo na vida cultural nacional.

A leitura e a provável replicação destes jornais, seja pela imitação, seja pela adaptação, devem nos dar pistas sobre as transferências culturais ocorridas neste âmbito, ou seja, deve nos dar subsídios para entender o espaço comum que se cria nestes múltiplos caminhos em que se cruzam culturas diversas.

Talvez a observação dos tipos de jornais nos possa apontar alguns caminhos. Na classificação destes cadernos, por vezes, é feita menção aos temas dos periódicos que, segundo consta, dividiam-­se principalmente em “generalidades” e “sciencias” sociais, matemáticas e aplicadas. Com o passar do tempo é possível notar um crescente interesse pelos temas das belas artes.

Seria preciso, porém, desconfiar da classificação adotada pelo nosso detalhista bibliotecário ­- a dificuldade de classificar um número tão extenso de periódicos o leva, ao que parece, a colocar na ampla aba “generalidades” a maior parte das folhas. Apenas um exame mais atento poderia nos fornecer um mapa de tendências temáticas deste acervo de maneira mais precisa, o que constitui a próxima etapa do nosso trabalho.

Notas

[1] BURKE, Peter. Culturas da tradução nos primórdios da Europa Moderna.Iin: BURKE, Peter e HSIA, R. Po-chia (orgs.). A tradução cultural nos primórdios da Europa Moderna. São Paulo: Editora UNESP, 2009. p.27.

*N. do A. – Estes documentos fazem parte de um política de disponibilização de fontes primárias utilizadas no presente projeto que também possam interessar a pesquisadores diversos. 

A fonte localizada por nós com a ajuda dos bibliotecários da Biblioteca Mário de Andrade William Okubo e Lívia Lopes Garcia, aos quais devemos agradecimentos especiais, bem como aos alunos Bruno Bartoli e Caio Russo, pesquisadores de Iniciação Científica deste Programa Jovem Pesquisador e à historiógrafa Ana Carolina Viotti do CEDAPH-Franca que fizeram a primeira captação e tratamento do material

A digitalização dos catálogos foi realizada pela Biblioteca Digital da UNESP em cujo site também estão disponíveis para consulta. Agradecemos à colaboração da professora Tania Regina de Luca e da bibliotecária Margaret Antunes cujo trabalho propiciou a alta qualidade da digitalização aqui disponível

Para citar este artigo

GUIMARÃES, Valéria. Livros de Registros da Biblioteca Pública de São Paulo – Fontes para a história da leitura da imprensa no Brasil. In: Jornais Franceses no Brasil, Programa Jovem Pesquisador – FAPESP Transferências Culturais na Imprensa na passagem do século XIX ao XX – Brasil e França, disponível em: <http://jfb.franca.unesp.br/publicacoes/verbetes/livros-de-registro-da-biblioteca-publica-de-sao-paulo%3E/page/0%2C0%2C0%2C0%2C0%2C0%2C0%2C0%2C0%2C4>