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 Vera Maria Chalmers

 

A escrita libertária do La Battaglia

 

Postado em 13/10/2015

La Battaglia publica seu primeiro número em 1901. A partir de junho de 1904 torna-se periódico semanal, com Oreste Ristori diretor, até setembro de 1912, sob direção de Gigi Damiani. Em 1913 funde-se ao jornal brasileiro Germinal, de Angelo Bandoni, Florentino de Carvalho, e outros, sob o título de La Barricata, nº394, de 20 de abril, Ano IX de La Battaglia. O periódico constitui-se como imprensa autoral devido à projeção de seus editores no meio anarquista.

O jornal abre-se às manifestações individuais e coletivas de diferentes colaboradores, caracterizando-se como uma espécie de caixa postal da correspondência do movimento anarquista na cidade e no Estado de São Paulo. As seções fixas, “Corrispondenze” e “Piccola Posta”, apresentam em sua escrita os signos dos leitores, correspondentes e colaboradores.

Os escritores porta-vozes dos colonos analisam as relações no campo como remanescentes da escravidão, pois o fazendeiro não faz distinção entre o trabalhador assalariado imigrante e o trabalho escravo do negro de origem africana. Os colonos queixam-se do tratamento discriminatório dispensado a eles na grande propriedade rural brasileira, embora também provenham do campo e da situação de penúria da pequena propriedade rural italiana, de onde imigraram para “fazer a América”, isto é para enriquecer e ascender socialmente. Ora este projeto é anulado nas relações de produção no campo do café.

Biondi (1998) analisa o conceito de sociedade feudal atribuído ao campo do latifúndio do café na correspondência dos leitores e nos textos da propaganda anarquista. A questão étnica e social constitui um obstáculo à integração do imigrante italiano como segmento da composição do proletariado brasileiro em formação, no campo e na cidade.

Nas revindicações dos imigrantes italianos, a questão do destino do ex-escravo negro posto à margem da produção pela imigração subsidiada pela oligarquia paulista do café não é jamais posta em debate. Os imigrantes sabem-se escravizados, mas tal situação não gera a solidariedade com o trabalhador brasileiro.

De acordo com Biondi, a questão do negro fica subtendida na reflexão sobre o feudalismo no campo. Mas eu não estou de acordo pois, ao ignorar a situação do trabalhador livre e do ex-escravo, o imigrante evidencia sua não integração na sociedade brasileira e sua tentativa de escapar da barbárie efetuada pela oligarquia paulista, refugiando-se na sua etnia européia.

A propaganda anarquista do La Battaglia ressente-se de eurocentrismo. Os anarquistas criticam a monocultura do café como responsável pelo atraso do país, mas deixam de perceber que a grande propriedade do café já é capitalista e visa a acumulação da mais valia nas relações de produção, embora de forma rudimentar e grosseira,com resquícios de escravismo nas relações sociais de produção.

O projeto da imigração subsidiada dos cafeicultores paulistas já é um projeto capitalista periférico. O eurocentrismo da propaganda anarquista italiana é uma forma derivada de colonialismo, da qual seus líderes não têm consciência. A concepção étnica interfere na reflexão anarco-comunista italiana sobre a sociedade brasileira em transformação e sobre a classe operária em formação, com a crescente urbanização da província a partir da fazenda, gerando as atividades de comércio e incipiente industrialização. Os anarquistas refletem a partir do centro, do seu lugar de origem, e não conseguem perceber claramente o que se passa na periferia do capitalismo.

Referências

BIONDI, Luigi. “O grupo do jornal La Battaglia e a sua visão da sociedade brasileira: o embate entre imaginários libertários e etnocentrismo”. Cadernos do AEL, vol.5, nº891, 1998

Para citar este artigo

CHALMERS, Vera Maria.  A escrita libertária do ‘La Battaglia’. In: Site TRANSFOPRESS Brasil, disponível em: <http://transfopressbrasil.franca.unesp.br/verbetes/la-battaglia/>